miércoles, 17 de noviembre de 2010

David Harvey: A socialização do trabalho e as relações com a natureza

...Isso nos conduz ao segundo aspecto das conexões entre o trabalhar e o viver na sociedade capitalista. A postura materialista de Marx levou-o a encarar as relações com a natureza como talvez a mais fundamental das relações ordenadoras das questões humanas. Estas relações são, em si, fundamentalmente expressas através do processo de trabalho que transforma as matérias-primas da natureza em valores de uso. O modo de organização desse processo de trabalho – o modo de produção – é portanto a base sobre a qual Marx constrói suas investigações. Colocar a coisa nesses termos não significa engajamento num determinismo econômico simplista; significa tão-somente adiantar a tese de que a relação com a natureza é o aspecto mais fundamental dos assuntos humanos. O capitalismo industrial, armado com o sistema fabril, organizou o processo de trabalho de maneira tal que transformou a relação entre trabalhador e a natureza num travesti até mesmo de sua antiga e limitada forma. Por ter sido reduzido a uma “coisa”, o trabalhador se tornou alienado de seu produto, da maneira de produzi-lo e, em última instancia, da própria natureza.

Que havia algo de degradante e antinatural nesse processo era aparente até mesmo para a consciência burguesa. Na verdade, a organização do sistema fabril parecia tão antinatural para a burguesia quanto para aqueles que tinham que viver suas vidas diariamente sob seu regime. A essa compreensão, como indica Raymond Williams, o capital fundiário chegou bem antes da revolução industrial.

“A organização de parques com perspectivas “arcadianas” dependia de um sistema completo de exploração da agricultura e das pastagens verdadeiramente rurais, para alem dos limites do parque... (Estes) eram partes interligadas de um mesmo processo, ou seja, superficialmente antagônicos no gosto, mas somente no caso (único) em que a terra estava organizada para a produção onde trabalhariam meeiros e assalariados, enquanto, no outro caso, ela estava organizada para o consumo... Na verdade, pode-se dize com justiça que essas organizadas paisagens do século XVIII não só foram o ponto alto da arte rural burguesa, como também conseguiram criar... uma paisagem bucólica... nos terrenos sob suas janelas e terraços, de onde haviam banido os fatos da produção”.

Com o advento do capitalismo industrial, tornou-se ainda mais enfática para a burguesia a tendência de contrariar ativamente, em sua própria esfera de consumo, aquilo que ela estava organizando para os outros na esfera da produção. Os poetas românticos britânicos –liderados por Woodsworth e Coleridge – e escritores como Emerson e Thoreau, nos Estados Unidos, sintetizaram essa reação à nova ordem industrial. A reação não se limitou ao âmbito dos ideólogos. Ela foi posta em prática na construção de propriedades rurais pela burguesia, no estabelecimento da mansão no campo, na fuá da cidade industrial e, em última tentativa de “trazer de novo a natureza para dentro da cidade” por escritores e projetistas como Olmstead e Ebenezer Howard, no século XIX, bem como Ian McHarg e Lewis Mumford, no século XX, atesta a continuidade desse tema no pensamento e na prática burgueses.

Porém, se a burguesia apenas sentiu, o artesão e o camponês deslocado experimentaram muito concretamente a alienação face à natureza, e a isso reagiram de forma vigorosa sempre que puderam. William Blake, o porta-voz da classe artesã, queixou-se amargamente daquelas “usinas escuras e satânicas” e jurou, com seu usual fervor revolucionário, que eles “...construiriam Jerusalém nas agradáveis e verdejantes terras da Inglaterra”. Confrontados com a brutal e degradante rotina do processo de trabalho na fábrica, os próprios trabalhadores procuraram formas de atenuá-la. Em parte eles o fizeram recorrendo às mesmas mistificações que a burguesia, e assim vieram a partilhar com ela da mesma imagem romântica da natureza. Quando, por exemplo, lhes indagaram por que as moças da usina de Lowell escreviam tanto sobre as belezas da natureza, o editor de seu jornal respondeu: “Por que será que o viajante do deserto procura e espera o esbanjamento e vê verdejantes oásis pintados diante de seus olhos doloridos?”. Entretanto, apenas sonhar com uma natureza idealizada e romântica no meio do deserto da fábrica dificilmente bastaria, por mais que isso ajudasse o trabalhador a atravessar o longo e tedioso dia. Em conseqüência, como registra Bender, “...os residentes de Lowell faziam, periodicamente e de várias maneiras, seu contato apreciativo com a paisagem natural. Além de usarem o cemitério e o parque público, buscavam a natureza através de vôos fantasiosos de sua imaginação, através das vistas de suas janelas, através dos passeios fora da cidade (apesar dos avisos de não ultrapassar) e através de visitas ao campo durante o verão”.

Tais respostas apoiavam-se, evidentemente, numa mistificação, pois elas reduziam a “natureza” a um conceito de tempo livre, como algo a ser “consumido” no decurso de uma pausa recuperadora daquilo que era de fato uma relação degradante com a natureza, na mais fundamental de todas as atividades humanas: o trabalho. Porém, a mistificação havia penetrado fundo na consciência de todos os elementos da sociedade. Falar hoje sobre relações com a natureza é invocar visões de montanhas e regatos, mares e lagos, matas e campos, longe da imagem do carvão, da linha de montagem e da fábrica, onde está sendo contínua e realmente moldada a verdadeira transformação da natureza. Existe um sentido, entretanto, no qual isto é uma necessária e inevitável mistificação sob o capitalismo. Sem ela, dificilmente a vida seria suportável. Os elementos progressistas dentro da burguesia sabiam que isso era tão verdadeiro para seus trabalhadores como para eles próprios. Não é de surpreender, portanto, que os reformadores burgueses, em geral sob o disfarce de princípios morais universais e da imaginação romântica, freqüentemente procurassem conseguir para seus trabalhadores um razoável acesso à “natureza”. Olmstead, talvez o mais espetacular desses reformadores nos Estados Unidos do século XIX, descobriu que “o interesse espontâneo do trabalhador era um estimulo mais eficiente para o trabalho, do que qualquer regime imposto artificialmente; na verdade, passar daí as propostas de parques e verdes subúrbios, como um antídoto às asperezas do dia-a-dia da vida urbana e industrial, era apenas um pulo”. Essa solução para os problemas da vida urbana-industrial foi posta em prática, nos tempos de Olmstead, fundamentalmente para as classes médias, mas atualmente vem sendo cada vez mais adotada para a classe trabalhadora “respeitável”. Ela teve um poderoso efeito sobre a paisagem física de nossas cidades. O contraponto entre natureza - representada pela imagem bucólica do campo – e um processo de trabalho representado pelo urbano e pelo industrial é fundamental para a historia do modo capitalista de produção. Esse contraponto contém uma tensão entre aquilo que Raymond Williams chama de “...um necessário materialismo e um necessário humanismo”, acrescentando:

“Freqüentemente tentamos resolve-lo dividindo trabalho e lazer, ou sociedade e individuo, ou cidade e campo, não somente em nossas mentes mas em subúrbios e cidades-jardim, casas da cidade e casas de campo, a semana e o fim de semana. Aí então, em geral, verificamos que... os capitães da mudança chegaram mais cedo e se fixaram mais firme; fizeram, na verdade, uma autodivisão melhor sucedida. A casa de campo... foi uma das primeiras formas dessa solução temporária...e, no século XIX, o número das novas construções feitas pelos senhores da produção capitalista era semelhante ao de construções dos antigos senhores, que eram melhoradas e sobreviviam... Permanece um fato notável o quanto esses agrupamentos tem sido fisicamente imitados, até aos detalhes das casas semi-isoladas e estilo de lazer e de fins-de-semana. Um capitalismo imensamente produtivo, em todos seus estágios, expandiu tanto os recursos como os modos pelos quais, embora desigualmente, estes oferecem e contem as formas de resposta a seus efeitos”.

Estas “formas de resposta” servem para definir parte do significado que valores de uso no ambiente construído apresentam para o trabalho. Os moradores dos subúrbios contemporâneos, quer trabalhadores, quer burgueses, não estão menos ansiosos, por exemplo, por afastar de suas vistas “os fatos da produção”, do que os proprietários de terra do século XVIII, pois esses fatos são, no mais das vezes, insuportáveis. Na medida em que os trabalhadores, conjuntamente com os capitalistas, encontraram meios de fazer exatamente isso, eles criaram um paisagem urbana e um estilo de vida que se funda naquilo que Williams chama de “...uma eficiente e enorme mistificação: uma mistificação, entretanto, que combina elementos de necessidade e de cruel frustração. O apego a algum sentido de relação não alienada com a natureza faz a vida suportável para o trabalhador, pelo menos no sentido de que isso conduz a uma avaliação realista do que foi perdido e do que pode potencialmente ser ganho. Porém, a romântica mistificação da natureza esconde, mais do que revela, a verdadeira fonte do sentido de perda e alienação de que está embebida a sociedade capitalista. A arte, a literatura, os desenhos urbanos e os “projetos para uma vida urbana” oferecem certas condições no local de vida, como compensação por aquilo que nunca pode ser realmente compensado no local de trabalho. Em poucas palavras, o capital procura atrair o trabalho para um acordo faustiano: aceitar o pacote das relações com a natureza no local de vida como uma compensação justa e adequada por uma alienada e degradante relação com a natureza no local de trabalho. Se o trabalho se recusa a ser atraído, apesar de todas as formas de sedução e lisonja e apesar da ideologia dominante mobilizada pela burguesia, então o capital precisa impor a barganha, porque a paisagem da sociedade capitalista precisa, em ultima instancia, responder mais as necessidades de acumulação do capital do que ás verdadeiras exigências humanas para o trabalho.


David Harvey
Otrabalho, o capital e o conflito de classes em torno do ambiente construído nas sociedades capitalistas avançadas



Joan Roig, Enric Batlle i Olga Tarrassó
Parc de l'Escorxador. Concurs d'idees. 1981





Albert Viaplana
Parc de l'Escorxador. Concurs d'idees. 1981

1 comentarios:

  1. Qué clase de idioma es este que tú usas y que no logro entender? Explícame por favor

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